quinta-feira, 23 de maio de 2013

"AUTORRETRATO"







(Branco sobre Branco) - "AUTORRETRATO" - Companhia "Nós Da Dança", de Regina Sauer  (Foto Ricardo Adami)



















IDA FLORES
CRÍTICA DE DANÇA
"AUTORRETRATO",

ou "O TAPETE VERMELHO", como bem poderia se chamar essa apresentação de Regina Sauer (maio de 2013), em cartaz no CCBB (Teatro II). Regina "vem com tudo", como diz, contando a trajetória do "Nós Da Dança". Essa companhia de dança moderna e jazz, criada pela bailarina e coreógrafa, possui uma trajetória de mais de 30 anos, sendo, no gênero, a mais antiga do Rio de Janeiro. Se antiguidade é mérito (e é), a matriarca da dança moderna (a outra é Carlota Portela), nos mostra neste espetáculo, entre alguns números alegres e comemorativos, uma das incursões mais emotivas da  dança, no Brasil: trata-se do momento em que a mestra entra em cena e, com a participação de seus alunos, desenha os corpos em movimento que a tornaram conhecida. Esse dançar, adquirido por Regina em sua experiência na Alvin Ailey School, representa a sua bagagem estética e emocional. Podemos dizer que este é o ponto alto do espetáculo. Neste "AUTORRETRATO", nada mais adequado do que a ligação mestre/aluno: do que esse "batismo" que é a sua chegada no palco.

       Bailarinos como Adriana Salomão (que encarna a expressão emocional sugerida por Sauer), Patricia Ruel e o recém adquirido Maicon D'Souza, são prodígios da linguagem de Alvin Ailey. Aliás, o grupo sofre, inconfundivelmente, da influência do balé de Ailey, e a mistura étnica que Regina reuniu em sua dança representa muito bem nosso Brasil. O grupo, sediado no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro, mostra que possui vigor democrático. São onze bailarinos, com técnicas adquiridas em várias experiências do "estilo Sauer". Destacamos ainda Keiton Sistelos, recém chegado dos EUA - cuja experiência clássica, desenhada em seu dançar, demonstra a abertura da coreógrafa para várias linguagens. Também a participação de Ana Formighieri, Rodrigo Fernandes, Stela Maris, Tatiana Pará, Thiago Manhães, Érika Lopes e Marcos Rogério, dão o testemunho do mais puro Sauer.  
 
       "AUTORRETRATO" se dispõe a relatar, através da gravação de depoimentos dos bailarinos, o dia a dia da dança. Em geral, são depoimentos ingênuos, embora sejam as vozes de professores e bailarinos experientes. Tal demonstração de "desprendimento" acompanha a vontade de mostrar o sofrimento físico que está por detrás de tanta dedicação. Há o bom humor da equipe, a boa vontade dos bailarinos ao narrar o sacrifício que leva à boa forma. Nada que o público não saiba, entretanto, o que está vivo, no espetáculo, é a paródia da narrativa, que possibilita revelar  tantos cuidados físicos. 

     Regina Sauer procura sempre uma linguagem que se comunique com o seu público. No atual "AUTORRETRATO" há um tempo de espera até se chegar a essa linguagem. Os primeiros minutos da apresentação, os desfrutamos com o distanciamento de (quase) um balé neo-clássico, tal os movimentos de esfinge "estatuária" impostos aos bailarinos. Tal o seu distanciamento. Há, nesse início, uma acentuada expressão técnica. Porém, a partir do segundo número, encontramos a expressão do balé moderno que a caracteriza, e cuja representação está bem estruturada nas músicas de Philip Glass, Suzane Ciani, Wim Mertens, entre outros. A trilha sonora do espetáculo é composta por Adriana Salomão e traz o já citado Philip Glass, cuja influência no espetáculo é determinante, com "Metamorphosis". Destaca-se ainda a música de Win Mertens, "Struggle for Pleasure"; Luiz Macedo, "Jongo Interlude"; Marcos Suzano "Samba Makossa", entre outros

      Regina Sauer, dessa vez, é lúdica. E emotiva. Às vezes temos a impressão de estarmos em uma região de sonho - "branco sobre branco" (ver a foto de abertura dessa crítica) - em sua dança. Há algo onírico, um tom de perplexidade. E a música incidental nos dá, também, alguns momentos de beleza e estranheza. No final, a companhia apresenta o resultado dessa auto-exposição, desse "AUTORRETRATO". Único senão: Essa pouco mais de uma hora de espetáculo se ressente da ausência de um texto de impacto. Assim como está, com depoimentos como: "Tenho 1,60m, sou magra e luto muito para assim permanecer" ... (por exemplo), e outros semelhantes, não transmitem a verdadeira história que é a "batalha do dia a dia" de um grupo de dança. Moderna, ou não.

FICHA TÉCNICA:

Produção: Sauer & Filetto, Flavia Hargreaves, Isabella Martins 
 
Direção Artística: Regina Sauer

Ensaiadora: Adriana Salomão

Figurino: Andre Vital

Cenografia: Clivia Cohen

Luz: Nando Pereira

Sonorização: Ariel Rodrigues

Gravação Musical: Adriana Salomão

Sonoplastia: Adriana Salomão e Danilo D'Avila 

Design: Flavia Hargreaves

Fotografia: Ricardo Adami e Kaká Boa Morte

Vídeo: Fernando Filetto

Assessoria de Imprensa: Alexandre Aquino, Eduardo Lamas e Paulo Almeida (Mais e Melhores)


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